Vidas imprevistas 2025
Galeria Gare exposição individual curadoria Agnaldo Farias 2025

Marina Godoy

Exposição – Vidas Imprevistas
Além de suas pinturas, desenhos e instalações, uma das faces da artista de Marina Godoy revela-se na atenção aos objetos, alvo dessa exposição de agora, intitulada Vidas Imprevistas, objetos banais, rapidamente identificáveis, outros estranhos, incompreensíveis, de tamanhos variados, alguns ínfimos, objetos que a cidade oferece nas barracas das feirinhas de antiguidades, nos brechós, ou largados nas calçadas, junto ao meio fio, a caminho do lixo, até dentro dele. A matéria prima dessa artista são as coisas que resistem heroicamente a ação do tempo, presenças nas paisagens domésticas em que nossos antepassados viviam, e também coisas quebradas, amassadas, rotas, esgarçadas, transfiguradas, inúteis como uma lata de refrigerante amassada. Coisas que um dia tiveram serventia e até mesmo, uma parte significativa deles, encantaram, como figuras e enfeites de porcelana, metal, madeira marchetada, cuidadosamente escolhidos por nossas irmãs, mães, tias, avós -os homens, adestrados para serem machos, seriam capazes dessa atenção delicada?- para adornar prateleiras ou viver no interior das cristaleiras que nós, quando crianças, contemplávamos como se fossem aquários silenciosos habitados de seres imóveis, museu de pequenas lembranças de viagens, alguns graciosos, outros beirando o cafona, todos atravessados pelo amor, pelo desejo de reter momentos e encontros memoráveis, como as
fotografias sucessivas e inúteis que produzimos com a mesma velocidade com que não lhe damos atenção. No geral mais duráveis que nós, espelhos, vasos, cabides, panelas, caixinhas, tampinhas de garrafa, relicários, imagens desgastadas, luvas, bolsas cruzam espaços e tempos para pousarem no alto dos móveis, no centro das mesas das salas de jantar, da mesinha de centro, de canto, ou, depois de aposentados, jazerem adormecidos dentro dos armários de roupas, nas entranhas de áreas de serviços, embaixo de pilhas do variado catálogo de utilidades domésticas.

Deter-se sobre os trabalhos de Marina Godoy, produzidos a partir de objetos
renascidos do monturo do esquecimento, significa reencontrar a toalha bordada
trazida de Portugal, um colar de pérolas falsas, leques e pedaços de saias cujas tramas finíssimas dotava-as de brilhos suaves, as rendas minuciosamente elaboradas, antigas heranças do ramo feminino da família, o variado conjunto de objetos que eram cuidadosamente acondicionados dentro de gavetas, como joias. E também significa deparar-se com ferrugem, o aroma resultante da conversa entre o ferro, a madeira e a pedra com o ar parado, o ar, este senhor do tempo, implacável e eficaz em aplicar camadas e camadas de pó em tudo, macerando peles, embaçando brilhos. Significa ainda deparar-se com uma série de instrumentos cujo significado não entendemos, sequer desconfiamos, como os objetos que o pai da artista, que foi médico, empregava em seus exames clínicos e intervenções cirúrgicas.

A poética de Marina não se esgota na percepção e escolha desses objetos, o que não seria pouco. Vai além: descobre-lhes afinidades insuspeitas, obriga-os a conviverem, mosaicos compostos por pedaços distintos, caleidoscópios de sentidos diante dos quais nos quedamos meditativos, tentando reconstruir a origem, a natureza de cada parte, os percalços pelos quais passaram, até chegarem ali, reunidos, cada qual – pedaço de porta, de veludo, chapa de ferro velho, ornamento de cabeceira de uma cama, bijuterias rebuscadas-, carregado de uma memória particular, amalgamado a outras memórias, como um resíduo arqueológico onde a vida, que se pensava morta, resiste.
Agnaldo Farias